domingo, 19 de abril de 2026

O que está acontecendo com o chocolate e o cacau no mundo

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O que está acontecendo com o chocolate e o cacau no mundo


Mercado global da amêndoa migra de escassez histórica para superávit, mas a cadeia produtiva ainda digere os estragos de dois anos de crise

O mercado global de cacau vive um momento de inflexão raro: depois de atravessar o pior ciclo de escassez das últimas décadas, a commodity começa a 2026 com uma virada de roteiro. Os contratos futuros negociados em Nova York, que chegaram a ultrapassar US$ 11 mil por tonelada em abril de 2024, um recorde histórico, recuaram para pouco mais de US$ 3 mil por tonelada no fim de fevereiro de 2026. A queda ultrapassa 70% em relação ao pico. Para a indústria, o alívio é real. Para o consumidor, ainda é cedo para comemorar.

A tempestade perfeita que sacudiu o mercado do cacau começou a se formar em 2023. Uma combinação de eventos climáticos e doenças afetou a produção global, especialmente em Gana e Costa do Marfim, países que juntos respondem por cerca de 70% da oferta mundial. Com lavouras envelhecidas e baixa adoção tecnológica, a África Ocidental não conseguiu responder à demanda crescente, e os preços dispararam. O efeito chegou às prateleiras brasileiras: o preço do chocolate já havia subido 11,9% em 2024, segundo o IPCA.

A virada da oferta

O que mudou nos últimos meses foi uma combinação de fatores no lado da produção. A safra 2024/25 registrou crescimento de cerca de 11% na produção mundial, favorecida por melhores condições climáticas na África e na América do Sul, fazendo o balanço global retornar ao campo positivo, com superávit estimado em 82 mil toneladas em 2024/25 e expectativa de 287 mil toneladas em 2025/26. O Equador emergiu como protagonista dessa virada: o país registrou exportação recorde de 568 mil toneladas na última safra e projeta embarques de 600 mil toneladas em 2025/26.

No Brasil, o cenário também aponta para crescimento, ainda que modesto. Dados preliminares do IBGE indicam que, na Bahia, principal polo nacional da cultura, a previsão é de crescimento do volume produzido de cacau em 5,3% em 2026.

O problema da demanda

A queda nos preços futuros, porém, esconde uma realidade incômoda: boa parte do reequilíbrio do mercado não veio da recuperação da oferta, mas do colapso da demanda. A moagem, considerada um termômetro do consumo industrial, apresentou queda significativa nos principais centros. Na Europa, o volume processado caiu 5,9% em 2025, atingindo o menor nível desde 2015. No Brasil, a retração foi ainda mais severa: a moagem recuou 14,6% em 2025.

Segundo analistas, a demanda global segue enfraquecida após os preços praticamente triplicarem em 2024. O encarecimento levou fabricantes de chocolate a reformular produtos e reduzir o tamanho das embalagens, o que resultou em acúmulo de estoques não vendidos na África Ocidental. Em outras palavras: o mercado voltou ao equilíbrio mais pela desistência do consumidor do que pela abundância do produto.

O chocolate mais barato ainda não chegou

A pergunta que mais interessa ao consumidor final, que é quando o preço das barras de chocolate vai cair, não tem resposta rápida. As empresas ainda estão liquidando estoques adquiridos no auge da crise. A Nestlé, fabricante do Kit Kat, afirmou que, embora as recentes mudanças nos preços sejam encorajadoras, ainda é muito cedo para comentar sobre mudanças específicas. A Hershey esperava que alguma “deflação” começasse a ocorrer apenas mais para o final de 2026.

O dado mais revelador do descompasso entre o mercado futuro e o bolso do consumidor é este: em fevereiro de 2026, a inflação do chocolate no Brasil atingiu 26,4% em 12 meses, bem acima do índice geral de preços. Os grãos mais baratos ainda estão percorrendo a cadeia de suprimentos, e as indústrias não têm pressa em repassar a queda quando ainda podem escoar estoques caros.

Riscos que persistem

Mesmo com o superávit projetado, especialistas alertam que a tranquilidade pode ser ilusória. Anna Paula Losi, presidente executiva da Associação Nacional das Indústrias Processadoras de Cacau (AIPC), destaca que extremos climáticos continuam impactando fortemente a cultura do cacau, e que esse quadro pode mudar de uma hora para outra. A concentração geográfica da produção é o principal ponto frágil: a África Ocidental ainda responde por mais de 70% da oferta mundial, e o mercado permanece sensível a oscilações climáticas e revisões de safra.

Além disso, Gana reduziu o preço pago ao produtor em 28,6%, enquanto a Costa do Marfim cortou quase 60%, acompanhando a queda das cotações internacionais. Movimentos que podem desmotivar investimentos nas lavouras e preparar o terreno para um novo ciclo de escassez no médio prazo.

O horizonte

O mercado de cacau em 2026 é o de uma indústria que sobreviveu a um choque severo e agora tenta recalibrar. O Itaú BBA avalia que o mercado global entrou em transição para um novo ciclo, marcado pela saída de um período de escassez para um cenário de recomposição da oferta, mas com o ajuste ocorrendo principalmente via retração da demanda. Para a commodity voltar a crescer de forma sustentável, será preciso mais do que preços em queda. Segundo a AIPC, tecnologia, novos produtos, novos usos e acesso a mercados internacionais são fundamentais para que o crescimento da oferta se traduza em demanda real.

Por ora, o chocolate mais barato segue sendo uma promessa. Pode ser real no mercado futuro, mas ainda distante das gôndolas dos supermercados. Fonte: https://agroemcampo.ig.com.br/

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