alhos & bugalhos
O que está acontecendo com o
chocolate e o cacau no mundo
Mercado global da amêndoa migra de escassez histórica para superávit, mas a cadeia produtiva ainda digere os estragos de dois anos de crise
O mercado global de cacau vive um momento de inflexão raro:
depois de atravessar o pior ciclo de escassez das últimas décadas, a commodity
começa a 2026 com uma virada de roteiro. Os contratos futuros negociados em
Nova York, que chegaram a ultrapassar US$ 11 mil por tonelada em abril de 2024,
um recorde histórico, recuaram para pouco mais de US$ 3 mil por tonelada no fim
de fevereiro de 2026. A queda ultrapassa 70% em relação ao pico. Para a indústria,
o alívio é real. Para o consumidor, ainda é cedo para comemorar.
A
tempestade perfeita que sacudiu o mercado do cacau começou a se formar em 2023.
Uma combinação de eventos climáticos e doenças afetou a produção global,
especialmente em Gana e Costa do Marfim, países que juntos respondem por cerca
de 70% da oferta mundial. Com lavouras envelhecidas e baixa adoção tecnológica,
a África Ocidental não conseguiu responder à demanda crescente, e os preços
dispararam. O efeito chegou às prateleiras brasileiras: o preço do chocolate já
havia subido 11,9% em 2024, segundo o IPCA.
A virada da oferta
O que
mudou nos últimos meses foi uma combinação de fatores no lado da produção. A
safra 2024/25 registrou crescimento de cerca de 11% na produção mundial, favorecida
por melhores condições climáticas na África e na América do Sul, fazendo o
balanço global retornar ao campo positivo, com superávit estimado em 82 mil
toneladas em 2024/25 e expectativa de 287 mil toneladas em 2025/26. O Equador
emergiu como protagonista dessa virada: o país registrou exportação recorde de
568 mil toneladas na última safra e projeta embarques de 600 mil toneladas em
2025/26.
No Brasil, o cenário também aponta para crescimento,
ainda que modesto. Dados preliminares do IBGE indicam que, na Bahia, principal
polo nacional da cultura, a previsão é de crescimento do volume produzido de
cacau em 5,3% em 2026.
O problema da demanda
A queda
nos preços futuros, porém, esconde uma realidade incômoda: boa parte do
reequilíbrio do mercado não veio da recuperação da oferta, mas do colapso da
demanda. A moagem, considerada um termômetro do consumo industrial, apresentou
queda significativa nos principais centros. Na Europa, o volume processado caiu
5,9% em 2025, atingindo o menor nível desde 2015. No Brasil, a retração foi
ainda mais severa: a moagem recuou 14,6% em 2025.
Segundo analistas, a demanda global segue
enfraquecida após os preços praticamente triplicarem em 2024. O encarecimento
levou fabricantes de chocolate a reformular produtos e reduzir o tamanho das
embalagens, o que resultou em acúmulo de estoques não vendidos na África
Ocidental. Em outras palavras: o mercado voltou ao equilíbrio mais pela
desistência do consumidor do que pela abundância do produto.
O chocolate
mais barato ainda não chegou
A
pergunta que mais interessa ao consumidor final, que é quando o preço das
barras de chocolate vai cair, não tem resposta rápida. As empresas ainda estão
liquidando estoques adquiridos no auge da crise. A Nestlé, fabricante do Kit
Kat, afirmou que, embora as recentes mudanças nos preços sejam encorajadoras,
ainda é muito cedo para comentar sobre mudanças específicas. A Hershey esperava
que alguma “deflação” começasse a ocorrer apenas mais para o final de 2026.
O dado
mais revelador do descompasso entre o mercado futuro e o bolso do consumidor é
este: em fevereiro de 2026, a inflação do chocolate no Brasil atingiu 26,4% em
12 meses, bem acima do índice geral de preços. Os grãos mais baratos ainda
estão percorrendo a cadeia de suprimentos, e as indústrias não têm pressa em
repassar a queda quando ainda podem escoar estoques caros.
Riscos que persistem
Mesmo
com o superávit projetado, especialistas alertam que a tranquilidade pode ser
ilusória. Anna Paula Losi, presidente executiva da Associação Nacional das
Indústrias Processadoras de Cacau (AIPC), destaca que extremos climáticos
continuam impactando fortemente a cultura do cacau, e que esse quadro pode
mudar de uma hora para outra. A concentração geográfica da produção é o
principal ponto frágil: a África Ocidental ainda responde por mais de 70% da
oferta mundial, e o mercado permanece sensível a oscilações climáticas e
revisões de safra.
Além disso, Gana reduziu o preço pago ao produtor em
28,6%, enquanto a Costa do Marfim cortou quase 60%, acompanhando a queda das
cotações internacionais. Movimentos que podem desmotivar investimentos nas
lavouras e preparar o terreno para um novo ciclo de escassez no médio prazo.
O horizonte
O
mercado de cacau em 2026 é o de uma indústria que sobreviveu a um choque severo
e agora tenta recalibrar. O Itaú BBA avalia que o mercado global entrou em
transição para um novo ciclo, marcado pela saída de um período de escassez para
um cenário de recomposição da oferta, mas com o ajuste ocorrendo principalmente
via retração da demanda. Para a commodity voltar a crescer de forma
sustentável, será preciso mais do que preços em queda. Segundo a AIPC,
tecnologia, novos produtos, novos usos e acesso a mercados internacionais são
fundamentais para que o crescimento da oferta se traduza em demanda real.
Por ora,
o chocolate mais barato segue sendo uma promessa. Pode ser real no mercado
futuro, mas ainda distante das gôndolas dos supermercados. Fonte:
Flash do Dia
Dia De
Santo do Dia
Pensamento do Dia
Charge do Dia
Priskas Eras


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