segunda-feira, 26 de janeiro de 2026

A Cronica de Walmir Rosário

 

AS ARTIMANHAS DE TYRONE PERRUCHO E AS NOVELAS DA GLOBO

Tyrone Perrucho prova novo óculos (foto -Júnior Trajano) 

Por Walmir Rosário*

Na sede da Ceplac, na rodovia Ilhéus – Itabuna, Tyrone – ou melhor, Perrucho – era um “boa praça”, sempre disposto a contar uma boa piada, ou simplesmente produzir situações inusitadas, sempre de forma discreta, disfarçada ou dissimulada. Nada que comprometesse ou que tivesse a intenção de prejudicar um colega, e sim a finalidade de alegrar o ambiente. E não foram poucas as vezes em que arquitetou boas safadezas, no bom sentido.

Certa feita, um ceplaqueano se apaixonou pelas novelas da Globo e iniciou a produção de várias, enviando os roteiros para o departamento da Vênus Platinada. Grandes pacotes com as sinopses eram postados nos Correios à vista de todos. Entretanto, não chegava uma simples resposta, nenhuma avaliação, um pedido de mudança, ou que parasse de mandá-las por falta de interesse da emissora.

E esse tratamento indelicado, beirando ao desprezo, começou a afetar o pretenso famoso novelista da Global, que passou a sofrer com a solidão que sentia em seu mundo intelectual. Centenas de páginas eram enviadas, e mesmo com o custo elevado cobrado pelos Correios, e nenhuma reposta. E isso passou a afetar o trabalho do colega, que foi diagnosticado como depressivo.

Certo dia, sem qualquer aviso-prévio, eis que chega um envelope postado no Rio de Janeiro e entregue pelos Correios ao nosso promissor autor de novelas, tendo como remetente o Departamento de Novelas da Rede Globo. Nosso colega escritor quase morre de emoção e, com as mãos trêmulas, abre o envelope, e não acredita no que vê: uma correspondência analisando, meticulosamente, sua última obra.

E mais, muitos elogios pelos trabalhos enviados e os pedidos de desculpas diante da demora do contato, culpa da monumental quantidade de sinopses recebida diariamente e que levavam tempo na análise. Sim, eles eram criteriosos e cada proposta era lida por três profissionais gabaritados, o que levava muito tempo na observação. Mas teria valido a pena, pensou, e já se via fazendo parte da galeria de brilhantes intelectuais televisivos brasileiros.

Em tempo, finalmente, o sucesso tinha chegado. Agora, bastava arregaçar as mangas, pedir a antecipação das férias vencidas à Ceplac e estender noites a dentro para fazer uma criteriosa revisão, conforme solicitavam os dirigentes da Globo. Após longos 45 dias de trabalho, nosso colega novelista envia um novo pacote pelos Correios, com as recomendações de rapidez, pagando uma verba extra ao novo serviço lançado: o Sedex.

Agora era só aguardar a aprovação. Planos para o futuro davam voltas com a rapidez de um avião supersônico em seu cérebro. Em determinados momentos pensava solicitar uma licença sem vencimentos à Ceplac, quem sabe se desligar de vez, pois sabia que não daria conta dos afazeres na instituição e na Rede Globo. Teria que chefiar um grupo de redatores para dar conta da nova novela global.

Enquanto imaginava o sucesso de sua obra em todo o Brasil e, quem sabe, no exterior, chegou a consultar amigos e chefes sobre a possibilidade de sua saída da Ceplac, seus novos planos, mas tudo com muito cuidado. E como o tempo não para, nosso colega começa a se impacientar com a demora da contratação. Três meses e nenhuma correspondência, nenhum contato, sequer as informações pessoais para o envio da passagem aérea para o Rio de Janeiro.

Mas como nesse mundo de meu Deus nada fica permanentemente em segredo, algumas pessoas tomam conhecimento que as correspondências da Rede Globo, apesar do carimbo de postagem do Rio de Janeiro, teria sido realizada em Itabuna, parte dela na sede regional da Ceplac. Mas como explicar o carimbo dos Correios numa agência de uma das grandes avenidas do centro do Rio de Janeiro?

Amarrando as pontas, os colegas chegaram à conclusão de que tudo não passava de uma singela brincadeira de Perrucho (Tyrone), que teria resolvido dar um empurrãozinho no sentido de recuperar a autoestima do colega ceplaqueano. Aproveitando a viagem de outro colega ao escritório de compras da Ceplac, no Rio de Janeiro, teria pedido para que fizesse a postagem. Na verdade, a intenção era tornar a correspondência um medicamento eficaz no combate à depressão do colega.

Apesar de alguns colegas explicarem ao futuro novelista que a correspondência teria sido uma simples molecagem de uma pessoa que o admirava, o “intelectual” ceplaqueano nunca acreditou nessa versão, pois possuía todas as provas materiais enviadas pelos dirigentes da Vênus Platinada. E ele não perdeu a esperança e continuou a dedicar parte de suas noites às novelas que fariam retumbante sucesso.

De forma dissimulada, (Tyrone) Perrucho sempre lhe perguntava quando suas novelas iriam ao ar, mas elas nunca apareceram na telinha da Globo.


*Radialista, jornalista e advogado

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